Confira a entrevista com o criador do Moda.Doc América Latina

Primeiro documentário que retrata o cenário da moda sustentável e artesanato no Brasil e outros países latinos.

Moda.Doc América Latina nos convida a conhecer o cenário da moda sustentável e artesanal no Brasil e outros países latinos, além de promover soluções reais e já existentes para os problemas da indústria, com base nos quatro pilares da sustentabilidade: social, cultural, ambiental e econômico.

O filme entrevistou nomes importantes e atuantes no setor no Brasil e na América Latina, como Flávia Aranha, Heloísa Crocco e Fernanda Simon, entre outros profissionais.

Uma iniciativa inspiradora que também busca valorizar o artesanato local e possibilitar a reflexão para tornar os consumidores de moda conscientes e responsáveis por suas escolhas.

O SDF conversou com o criador, roteirista e diretor do documentário, Rodrigo Müller.

Rodrigo atua como modelo no mercado nacional e internacional, com formação em Direito Ambiental e Sociologia o faz observar a moda com olhar crítico e, a partir desta observação, tornou-se um defensor da moda ética, responsável e consciente.

Confira a entrevista abaixo.

1. Poderia contar um pouco sobre você e como surgiu a ideia do documentário?

A ideia do documentário surgiu enquanto em morava em Londres. Lá eu conheci o movimento da moda ética e então resolvi fazer minha parte. Em 2011, voltei para o Brasil e um ano depois, em 2012, comecei minhas pesquisas. No início eu tinha em mente criar um website para conectar marcas éticas da América Latina com jornalistas do mundo todo. Logo depois achei que o trabalho seria mais eficiente se eu registrasse tudo em imagens para mostrar para o mundo. Eu morei no Uruguai, no Chile e estive em outros países da América Latina fazendo as pesquisas. Conversei com muitos profissionais do setor (estilistas, artesãos, jornalistas, professores, ambientalistas) e quando percebi tinha o conteúdo para um filme longa metragem.

2. Qual o principal objetivo do Moda.Doc América Latina?

Este é um filme que tem como objetivo a reflexão sobre o papel da moda e de como o consumidor tem o poder de transformá-la, um filme que busca dar visibilidade às marcas de moda sustentáveis e o artesanato local. Este é o ponto de partida para a transformação da moda na América Latina, que pode e deve se tornar mais ética, limpa, inovadora, original e inteligente, sem deixar de ser lucrativa, pois possui uma enorme riqueza cultural, matéria-prima de qualidade (muitas vezes orgânica), estilistas com muito talento e mão de obra em abundância. O diferencial da moda na América Latina deve ser a sustentabilidade.

3. Quem são e como foram escolhidas as pessoas que participam do filme?

Só entrarão no filme iniciativas e marcas que forem cuidadosamente avaliadas e aprovadas pelo NOMDAL (Núcleo de Organizadores do MODA.DOC AMÉRICA LATINA em conjunto de professores universitários de moda e de profissionais que trabalham nas organizações de moda ética na America Latina). Este grupo foi formado ao longo de anos de pesquisa. É muito importante que apenas empresas idôneas façam parte do documentário.

Já a equipe técnica que fará parte da criação do longa metragem foi montada tendo em vista a ampla experiência de cada profissional em suas respectivas funções na área do cinema e a afinidade com o tema da sustentabilidade.    

4. Com a realização do documentário o que pôde perceber sobre o atual cenário da moda na América Latina e como o tema moda sustentável e consumo consciente estão inseridos?

Existe um mundo novo prestes a ser desvendado, são inúmeras iniciativas incríveis acontecendo e ainda não temos conhecimento sobre elas. É perfeitamente possível existir uma indústria da moda que gere lucro e que não cause tanto prejuízo para as pessoas e ao meio ambiente, a marca norte americana Patagonia e muitas outras de menor porte aqui na América Latina nos servem como exemplo.

Usando matéria-prima orgânica, reutilizando ou reciclando materiais temos a oportunidade de reduzir o impacto no meio ambiente. Muitas marcas trabalham em sistema de cooperação com produtores de matéria-prima orgânica. Isto garante a qualidade dos produtos e ajuda a manter viva a cultura e tradição dos trabalhadores locais. O futuro da moda é sem dúvida o feito a mão, tecnologia e sustentabilidade.

5. Como a moda incentiva e valoriza as culturas locais e o trabalho artesanal de cada região?

Muitos estilistas tiveram que criar a sua própria cadeia produtiva na busca de desenvolverem empresas realmente éticas. E isto é muito significativo, algo novo está acontecendo. Até bem pouco tempo não era possível digitar no Google “fornecedores de matéria-prima orgânica para moda” e resultar diversos links para escolha, isto tudo está surgindo agora.

Muitos estilistas tiveram que criar a cadeia produtiva, ir literalmente em busca destes produtores. E este trabalho, mais próximo, traz benefícios para todos. Os produtos ganham em inovação, originalidade e qualidade. Já os produtores de matéria-prima são remunerados de forma justa e fazem parte do processo criativo. Isto gera autoestima para eles e faz com que estas comunidades mantenham suas culturas vivas.  

6. Você acredita que está havendo uma mudança no comportamento das pessoas e das empresas na forma como produzir e consumir moda?

Absolutamente, assim como na indústria dos alimentos, na moda a sustentabilidade é cada vez mais relevante. Você já parou para pensar que o maior órgão do corpo humano é a pele? É importante ter cuidado com o que colocamos sobre ela, e este é apenas um dos problemas causados pela indústria da moda convencional.

Existe também todos os problemas socioambientais, o documentário “The True Cost” trata bem sobre estes problemas. Para evoluirmos neste sentido devemos observar três pontos: consumidor, empresa e mídia. A mudança deve acontecer nestes três pontos, mas é o consumidor que pode fazer este processo andar de forma mais rápida.

O consumidor deve sair da influência das mídias e começar a se dar o direito de questionar, pesquisar, escolher e pedir. É ele que, de certa forma, tem o verdadeiro poder. Ele tem o poder da “demanda” e o mercado busca responder à “demanda”. No entanto, este é um ciclo que se retroalimenta no momento em que é o mercado que fornece a informação sobre o consumo sem independência.  

7. No site do Moda.Doc vocês comentam que “é urgente realizar um trabalho de educação e sensibilização para o público em geral e desenvolver a noção de consumo consciente” para você, quais são os principais desafios para realizar esse trabalho e como o filme colabora com isso?

Eu descobri sobre o modo de produção “Fast Fashion” quando eu morava em Londres, comecei a me questionar sobre os preços absurdamente baixos e foi aí que entendi como tudo funcionava. Fiquei muito descontente comigo, eu que sempre fui um apaixonado pela natureza e estudei Direito Ambiental por muitos anos, mas, felizmente, eu decidi fazer a minha parte.

O maior desafio até aqui foi sem dúvida começar o projeto sozinho quando quase ninguém queria ouvir falar sobre sustentabilidade na moda. Eu usei todas as minhas economias para viajar e fazer a pesquisa de campo. Toda a fase de pré-produção foi custeada por mim, ou seja, anos investindo todo o meu tempo e dinheiro neste filme.

Eu poderia simplesmente ter feito o que era mais fácil, não o que era correto. Mas que tipo de pessoa seria eu se, mesmo sabendo sobre tudo, não fizesse nada para ajudar na mudança? Este filme é uma resposta da América Latina para o mundo sobre sustentabilidade na moda, e muito mais!

O conteúdo do filme é riquíssimo, há momentos de tensão, mas também há muita sensibilidade e beleza. É realmente um respiro em um mundo tão turbulento como o dos dias de hoje.

Os entrevistados falam abertamente sobre a indústria da moda e sobre a América Latina, muitos deles são personagens conhecidos no cenário mundial, como Livia Firth e Carry Somers.

Portanto, o filme colabora para a evolução da moda e valorização do artesanato na América Latina porque é um retrato isento do que está acontecendo neste setor hoje em nosso continente e vislumbra como ele será no futuro. Informação é a chave para a transformação.

8. O que foi mais interessante descobrir ao fazer o documentário Moda.Doc?

Com certeza foi descobrir que estamos no lugar certo e na hora certa. Estamos vivendo um momento singular na história da humanidade. Temos tudo aqui, precisamos nos descobrir e nos organizar.

9. O que espera para o futuro da moda?

Eu espero que a moda volte a existir. Espero consciência e evolução.

10. Quando será a estreia e onde estará disponível?

O filme estreia em 2018 e estará disponível na internet para que todas as pessoas possam assistir, além de canais fechados é claro. Será feita também uma série para TV e será publicado um livro sobre a moda e o artesanato da América Latina.   

Aguardamos ansiosamente a estreia dessa linda e inspiradora iniciativa. Por enquanto, podemos conferir o teaser do filme, abaixo.

 

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