Bioplástico e suas aplicações na Moda

Biodegradáveis e igualmente resistentes aos plásticos comuns, já estão sendo utilizados na agricultura, indústria têxtil, medicina e, sobretudo, no mercado de embalagens.
Bioplástico, foto cedida por Rafaela Pires e Helena Kussik

O impacto da produção de plástico é um dos nossos principais problemas atualmente, segundo a Fundação Ellen MacArthur mais de 8 toneladas de plásticos acabam nos oceanos a cada ano. Em 2015, por exemplo, dos sete bilhões de toneladas de resíduos de plástico gerados, apenas 9% foram reciclados, 12% incinerados e 79% foram para aterros ou para o meio ambiente.

Como alternativa para esse problema o uso dos bioplásticos está sendo promovido em diversos setores. Os bioplásticos  são materiais biodegradáveis provenientes de fontes renováveis que podem ser desenvolvidos a partir de resíduos agrícolas, de celulose ou de batata e amido de milho.

Igualmente resistentes aos plásticos comuns, já são utilizados na agricultura, indústria têxtil, medicina e, sobretudo, no mercado de embalagens.

Oficina de Bioplástico por Rafaela Pires e Helena Kussik.

Os bioplásticos são materiais muito versáteis com infinitas aplicações e, também podem ser desenvolvidos em casa. Para entendermos mais sobre o tema, o SDF conversou com a Rafaela Pires e a Helena Kussik  duas amigas que se dedicam a estudar esse material, além de organizar oficinas onde ensinam a desenvolver bioplásticos caseiros.

Confira abaixo a entrevista completa.

1.  Poderiam começar contando um pouco sobre vocês e o trabalho que desenvolvem?

Rafaela Pires – Eu sou estudante de doutorado da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Usp, faço minha pesquisa sobre cultura maker e fabricação digital voltado para moda. Embora os bioplásticos não sejam parte da minha pesquisa, como “maker”, não pude deixar de experimentar os tutoriais disponíveis na rede. Me juntei com a Helena para fazer testes meio que na brincadeira e ficamos super entusiasmadas com o resultado! 

Helena Kussik – Sou formada em design de Moda, eu e a Rafa estudamos juntas e daí vem o enlace. Sempre acabamos nos unindo pra criar ou testar algo novo! Meu interesse por alternativas sustentáveis à indústria convencional vem desde a época da graduação. De todos os braços que a moda sustentável nos estende, acabei abraçando o feito a mão e a relação mais aproximada com os produtores. Assim, por afinidade e interesse, acabei fazendo um mestrado em antropologia e hoje trabalho com pesquisa sobre artesanato tradicional. 

  1. O que é bioplástico e quais são suas aplicações na moda? 

Existem diferentes tipos de bioplásticos. Alguns não usam matéria-prima natural e renovável, outros não são biodegradáveis, mas existem os que apresentam ambas características. Vários produtos como sacos plásticos, embalagens descartáveis que usam diferentes tipos de bioplásticos estão em uso no cotidiano. Existem projetos como o próprio bioplástico desenvolvido pela Embrapa. Estes projetos desenvolvidos em laboratórios são mais aprimorados e em geral colocam aditivos para melhorar a performance do material para que concorra no mercado.

No nosso caso, resolvemos testar algumas receitas caseiras mesmo, com materiais que você encontra na própria cozinha. O bioplástico que fazemos de modo caseiro é um polímero natural a base de amido, vinagre e glicerina. Dependendo da quantidade de amido (que pode ser de milho, tapioca, de batata, etc) e de glicerina têm-se como resultado um plástico mais ou menos flexível. Com o modo caseiro de fazer, ele não é muito resistente à umidade, mas funciona bem para usos como acessórios, por exemplo. Se cuidar em relação a isso, pode durar até dois anos. Se quiser descartá-lo ele se degrada dentro de duas semanas quando posto dentro de uma composteira. Quanto a usos no campo da moda, com este tipo de receita caseira, confesso que não tenho um grande repertório de exemplos. Nas pesquisas que fiz encontrei poucos, a maioria no exterior. Temos alguns exemplos feitos pelo pessoal do FabTextiles (citado abaixo), alguns artesãos que aplicam em acessórios e de, Belo Horizonte, uma aluna de design de moda fez experimentos e um ensaio fotográfico como trabalho final de seu curso na UFMG (Carolina Puppe). 

  1. Como  esse material colabora para um design mais sustentável?

Colabora justamente por se decompor com facilidade, por aderir a qualquer outro material, pode-se utilizar corantes naturais. Também apresenta uma grande varidade de flexibilidade, expessura, se molda e pega o formato de qualquer superfície. Enfim, apresenta- se como um material super versátil. Além da questão prática e material da técnica, tem outro aspecto muito interessante nessa história toda. Encontrar algo que não está pronto, uma relação com a qual não temos muita afinidade de início, é desafiador. E é nesse desafio que novas idéias podem surgir; inovações de material, produto, mas também na busca por caminhos para um design mais conectado com aspectos sustentáveis de uma maneira mais ampla. 

  1. Como analisam o mercado brasileiro e a adoção desse material?

Pelos resultados obtidos com esta receita caseira, acreditamos ser um material super interessante para indústria criativa, designers que produzem em pequena escala, pelo fato de ser feito de modo muito artesanal. O material nunca sai exatamente igual à receita anterior, mas é justamente esse aspecto da imprevisibilidade e das inúmeras possibilidades de utilizar cores, combinar outros materiais, que tornam o processo tão criativo. Além disso, esses produtos tem um ciclo de vida curto e pode-se até mesmo, dar como instruções de ser um produto descartável. Esta imprevisibilidade da reação do material não é bem aceita nos padrões comerciais da indústria. Já a descartabilidade, embora paradoxalmente se pratique tanto numa sociedade de consumo, não é um valor aceito como um produto “bom” e de “qualidade”. Mas no âmbito da produção autoral, que já tem um ímpeto de quebrar com alguns conceitos muito estigmatizados na cultura do consumo, pode se apresentar em usos muito interessantes. Eu mesma tenho vários colares de bioplástico de tapioca, são meus preferidos 🙂

  1. Acreditam que a cultura maker incentiva a pesquisa e a produção desse material?

Sem dúvidas! Por exemplo, parte das informações que te dou aqui e que nos permitiram fazer as experiências vieram de dados que encontramos na internet. Não só em vídeo-tutoriais, mas também buscamos explicações mais aprofundadas em artigos científicos, dissertações de mestrado, brochuras de revistas online, etc. Um outro ponto é que, e esse é um aspecto bem característico da cultura maker, você pode assistir vários tutoriais do mesmo tema e cada pessoa vai dar uma dica diferente, mas quando você vai fazer o teste de fato, a coisa sai de um outro jeito e aí você precisa improvisar pra alcançar os resultados efetivos para aquilo que planejou. A experiência, a mão na massa, deve ser repetida, aperfeiçoada. Esta persistência é essencial para conclusão de um projeto de relevância. E é aí que surgem os desafios e as surpresas quase nunca registradas, porque únicas em processos experimentais. Só captar milhares de informações e testar uma única vez tende a gerar frustrações na primeira viagem.

  1. Poderiam dar alguns exemplos de aplicações de bioplástico na moda (designers, marcas que já trabalham com esse material)? E referências de sites e livros para quem quer saber mais sobre esse material?

Quanto aos designers, como dito anteriormente, não encontramos muitas referências. Está em aberto para que mais gente use a técnica em diferentes aplicações na moda. Me parece ser algo que voltou a ser resgatado de alguns anos pra cá. Quanto as referências, aqui vão algumas que nos foram preciosas: 

http://fabtextiles.org/the-secrets-of-bioplastic/

https://issuu.com/miriamribul/docs/miriam_ribul_recipes_for_material_a

Além dos vários vídeo-tutoriais no youtube. Em breve (até o fim de março/2018) lançaremos um vídeo-tutorial para explicar como fazer em casa.

  1. O que esperam para o futuro da moda e design?

Esperamos um futuro mais sustentável, com respeito, valorização a dedicação do tempo de todos os trabalhadores da área. Onde a tecnologia atue como um facilitador, uma ferramenta, manejada por profissionais cada vez mais capacitados e criativos.

Para quem quiser saber mais sobre o trabalho e pesquisa da Rafaela Pires e Helena Kussik pode entrar em contato pelo email rafaela.pires@usp.br.

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