O que é Design Circular?

O desenho de produtos também precisa incluir critérios de circularidade e de saúde humana e ambiental.
Foto Rawpixelcom | Unsplash

Para entender o que é design circular, precisamos perceber como o design de produto ‘tradicional’ contribuiu para o desenvolvimento insustentável da economia linear, e o papel crucial de um novo olhar para o desenho industrial na transição para a economia circular.

Talvez por ser de origem estrangeira, no Brasil a palavra ‘design’ é muitas vezes mal-compreendida. Associada a móveis caros ou depilação de sobrancelhas, pode soar como algo supérfluo. Nada mais longe da verdade.

Segundo a designer e pesquisadora Mônica Moura, “Design significa ter e desenvolver um plano, um projeto, significa designar. É trabalhar com a intenção, com o cenário futuro, executando a concepção e o planejamento daquilo que virá a existir”. Mais sucintamente, nas palavras do pioneiro Alexandre Wollner: “design é projeto”.

O design como disciplina e profissão surgiu junto com a Revolução Industrial. Ele chega a partir da necessidade de um novo pensamento para a concepção e produção em massa, trazendo como principal benefício a ampliação do acesso a produtos e serviços.

Porém, os critérios usados para esse processo não incluem a valorização e recirculação dos recursos. Pelo contrário: a partir dos anos 30, num esforço de estimular a economia depois da Grande Depressão de 1929, designers passam a ser incumbidos de desenhar novos produtos a partir da obsolescência programada. Esta estratégia vigora até hoje, especialmente na indústria de eletrônicos. Isso significa que os produtos são projetados com a intenção de que se tornem obsoletos e sejam descartados e substituídos o mais rápido possível.

A obsolescência pode ser funcional, como no caso de lâmpadas que têm sua vida útil reduzida pela substituição de materiais duráveis por outros de menor qualidade, ou impressoras programadas para parar de funcionar após certo número de impressões. E existe ainda a obsolescência percebida: criam-se novos modelos com mudanças de estilo, estimulando consumidores a desejar algo um pouco melhor ou mais novo, mesmo que seu produto ainda funcione perfeitamente.

Para além dessa estratégia intencional que estimula o desperdício e o consumismo, não é difícil perceber que o design atual não inclui o objetivo de recuperar o valor dos materiais e componentes de um objeto após o seu descarte. Em sua grande maioria, os produtos no mercado não foram desenhados para serem desmontados ou reciclados. A logística reversa desses produtos torna-se, então, inviável, seja por motivos técnicos ou financeiros.  Por não terem sido concebidos com esse objetivo em mente, o processo de desmontagem danifica componentes e materiais, e a reciclagem se limita a uma subciclagem ou downcycle, resultando em materiais de qualidade e funcionalidade inferior.

No âmbito da saúde e segurança, o desenho industrial também deixa muito a desejar, com elementos tóxicos embutidos nas mais diversas linhas de produção. Um exemplo são roupas de poliéster com antimônio em sua composição – um metal pesado potencialmente cancerígeno. Quando em contato contínuo com a pele, a substância causa irritação e alergia, podendo gerar problemas gastrointestinais e no sistema reprodutivo. E isso não é comunicado de forma clara ao consumidor. Ao comprar uma camiseta esportiva de poliéster, você não sabe que esses aditivos estavam incluídos e que seriam ou poderiam ser prejudiciais à sua própria saúde ou à saúde dos seus familiares.

A intenção do design na indústria atual se limita, assim, a criar um produto atraente que seja acessível às pessoas, siga as regulamentações, goze de desempenho suficiente ou aceitável e dure o bastante para atender às expectativas do mercado.

Mas isso não é suficiente.

Agora que temos consciência das consequências negativas desse modelo, e da economia linear como um todo, é fundamental mudarmos os critérios que definem um bom design. Não podemos dizer que um produto é de boa qualidade se ele é tóxico para as pessoas ou para o planeta, e se os materiais usados na sua composição se transformam em lixo após o primeiro uso. Por isso, o desenho de produtos também precisa incluir critérios de circularidade e de saúde humana e ambiental.

Esse quadro é desafiador, mas traz uma enorme oportunidade de inovação através do design, em todas as indústrias. Assim como os designers contribuíram para o desenvolvimento da economia linear, eles têm o potencial de liderar a transição para uma economia circular.

Se o lixo é um erro de design, o design circular é um elemento crucial para criarmos um mundo sem lixo.  Ou seja, um mundo em que produtos e sistemas são projetados para manter o valor dos recursos em circulação para as gerações futuras. Em que, mais do que reduzir o impacto negativo de nossas atividades, podemos criar processos benéficos para os seres humanos e para a biosfera.

Os designers e fabricantes que quiserem se aventurar por este caminho não estarão sozinhos. Cada vez mais profissionais, empresas e organizações estão apostando neste modelo, e investigando os princípios que guiam a transição para um futuro circular.

3 princípios

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No livro Cradle to Cradle, de 2002, William McDonough e Michael Braungart identificam 3 princípios de design que fundamentaram o desenvolvimento global do conceito de economia circular, ainda que na época isso não fosse ainda identificado pelo termo design circular.

Os autores se basearam no funcionamento dos sistemas naturais para fundamentar os três princípios para o desenho de produtos e sistemas eco-efetivos:

1.Resíduos são nutrientes

Se a natureza funciona a partir de uma lógica cíclica, esta pode e deve ser mimetizada em nossos processos produtivos para utilizarmos efetivamente os recursos disponíveis. Na escala industrial e urbana, resíduos se tornam insumos para novos processos, e produtos e sistemas são pensados com o entendimento de que cada material tem o seu devido valor, que é recuperado ao final de cada ciclo de uso.

Para isso trabalha-se a distinção entre dois ciclos: o técnico e o biológico. Essa distinção é fundamental para o design circular, e é a base do famoso ‘gráfico borboleta’, desenvolvido por Braungart e McDonough para a Fundação Ellen MacArthur.

2.Energia limpa e renovável

Os seres vivos, os sistemas naturais e planeta como um todo dependem da energia solar para sobreviver e prosperar. A energia solar tem uma entrada constante e infinita, que é substituída a todo momento, e por isso a denominamos de renovável – assim como outras fontes derivadas dela, como a eólica, hídrica ou de biomassa.

Para o design de produtos industriais, os fabricantes são encorajados a ir além da eficiência energética (minimização do consumo e redução de impactos). Ao se comprometer com o uso de energias renováveis durante o processo de fabricação, eles geram um efeito positivo e estimulam o desenvolvimento e disseminação de novas tecnologias para substituir os combustíveis fósseis finitos e poluentes.

3.Celebrar a diversidade

 A diversidade é entendida como uma forma de fortalecer os diferentes sistemas e processos existentes em determinados locais. Sistemas mais diversos tendem a ser mais resilientes. Podemos falar em diversidade de espécies, de culturas ou ainda diversidade de soluções. Hoje em dia, a indústria utiliza soluções universais, que oferecem um mesmo produto para um número infinito de condições e costumes locais.

No lugar da imposição de um modelo único, o design circular tem o potencial de enriquecer a oferta de produtos e serviços pensados a partir das particularidades e demandas de cada público ou local.

Saiba mais sobre os 3 princípios Cradle to Cradle para o design circular.

4 modelos

O projeto britânico The Great Recovery Project, desenvolvido entre 2012 e 2016 pela RSA em parceria com a Innovative UK, teve o foco de sua atuação a investigação dos desafios e oportunidades do desenho de produtos e sistemas para a economia circular. No relatório Investigating the Role of Design for the Circular Economy – Investigando o Papel do Design na Economia Circular – são identificados quatro modelos de design, que guiam abordagens complementares para esse processo de transição.

(1) O DESIGN PARA LONGEVIDADE inclui formas de estender o tempo de uso de um produto. Isso ocorre não apenas através de materiais e componentes duráveis, mas também pela possibilidade de serem facilmente consertados ou atualizados pelos próprios usuários.

(2) O DESIGN PARA SERVIÇO propõe a criação de novos modelos de negócios, em que produtos passam a ser serviços, e consumidores se tornam usuários. Isso beneficia tanto as empresas quanto seus clientes, e facilita a recuperação de componentes e materiais. O design para serviço já vem sendo implementado com sucesso em diversas áreas, fazendo com que as empresas se mantenham responsáveis pelo conserto e encaminhamento de equipamentos quando estes deixam de servir a seus usuários.

(3) Essa proposta facilita o terceiro modelo, que é o DESIGN PARA REMANUFATURA. Se a empresa é a responsável pelo destino de um produto, torna-se mais vantajoso concebê-lo de forma que possa ser mais facilmente desmontado, consertado e reutilizado ou revendido. Ou projetar componentes e materiais que possam ser aproveitados em diversas linhas de produtos.

(4) Por fim, o DESIGN PARA RECUPERAÇÃO DE MATERIAIS envolve o aproveitamento de materiais através da reciclagem, quando não possam mais ser aproveitados pelos modelos anteriores. Vale lembrar aqui que a avaliação criteriosa de cada um dos materiais que compõem um produto, na etapa de concepção e design, está diretamente ligada ao sucesso dessa estratégia. O design de materiais que possam ser reciclados sem contaminação ou perda de valor também é crucial para passar da subciclagem atual para o upcycle ou superciclagem.

Vale observar a importância do DESIGN PARA DESMONTAGEM para viabilizar os quatro modelos propostos acima. Para que um usuário possa consertar ou atualizar um produto ele mesmo, as partes precisam ser facilmente separadas e identificadas. Isso também é necessário para viabilizar modelos de remanufatura e redistribuição: o produto deve ser facilmente desmontado para que componentes possam ser substituídos e reaproveitados.

O design para desmontagem é igualmente importante para viabilizar economicamente a recuperação de materiais – seja pela reciclagem, ou pela compostagem – quando os componentes não puderem mais ser aproveitados. Ainda que o relatório mencionado foque em produtos do ciclo técnico, essa recuperação pode ser ainda para o ciclo biológico, devolvendo nutrientes de forma saudável para a biosfera. Através do design para a desmontagem, produtos que misturam componentes técnicos e biológicos podem ter seus materiais adequadamente separados e encaminhados para novos ciclos de uso e valor.

Não é só para designers!

A transição para uma economia circular é um dos maiores desafios criativos do nosso tempo. Como já vimos, o desenho de produtos tem um papel central nesse processo, e o design circular traz ferramentas importantes para abordar esse desafio complexo de forma efetiva.

Mas isso não é assunto apenas para designers. Se seguimos a definição de design como projeto, ou seja, intenção, concepção e planejamento daquilo que virá a existir, não é difícil perceber que todos praticamos design, todos os dias.

No Brasil, onde boa parte da indústria ainda não adquiriu o hábito de contratar designers, o desenho de produtos é geralmente levado a cabo por engenheiros de produção, técnicos e outros profissionais. E não é apenas nessa escala que o design acontece. Arquitetos praticam design ao projetar um edifício, urbanistas ao definir intervenções no traçado urbano. Empreendedores desenham planos de negócios e legisladores desenham leis. Todos nós desenhamos, da melhor forma possível e em interação com outros desígnios, nossos próximos passos.

Por isso a compreensão, investigação e aplicação de princípios de design circular é uma tarefa que não se restringe aos profissionais de design. Para alcançar essa transformação sistêmica, precisamos de novos produtos, e também de novos sistemas e modelos de negócio. A transição para a economia circular é um projeto que vai precisar da contribuição multidisciplinar de pessoas de todas as áreas de atuação e conhecimento.

Queremos descobrir novas formas de habitar o planeta, e novas formas de nos relacionar com os recursos e produzir riqueza. O design circular pode ser uma das chaves para conseguirmos gerar prosperidade econômica, social e ecológica que se sustente no longo prazo.

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*Texto gentilmente cedido para o Blog SDF foi idealizado por Léa Gejer e Carla Tennenbaum e publicado originalmente no site Ideia Circularuma iniciativa de educação sobre Economia Circular e Inovação do Berço ao Berço. Saiba mais aqui.

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